segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Resumindo

Trago no pulso um relógio
para garantir
estar sempre atrasado.
Um batimento cardíaco
de um órgão murcho
feito uma boca idosa
que tanto prezo

Se me esforçar
um dia
entenderei prefácios
de poesia
no entanto
aceito a proposta do acaso

Minha mãe assistiu uma fita
de mim criança
perguntou:
por que seu olhar sempre foi triste?
não sei direito
mas isso magoou bastante

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Meu olhar percorre o céu

Acadêmico
                  mesopotâmico
brasileiro principalmente
lunático
             aeroviário
                               e além
pessoas e cores na bagunça do escuro
Obscuro
místico simétrico feérico
                                 e mais
imune aos corpos e pensamentos

Recanto de deuses
extremos elementos
almas desencarnadas

Meu olhar percorre o céu
                                       sinfônico atônito

Ansiedade cadente
notas celestes
compasso de peito
pulmão amiúde
                           assim
meu olhar percorre a alma
e poema sobre alma e céu nunca tem fim...

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Pintura e literatura

O homem descarrega numa arte
descarrega tudo que carrega
assim assado um bocado de sentimentos
homem que ninguém nota
anedota da humanidade

Homem que chora
ainda que palavras sejam lágrimas
ainda quando pinta chora tinta

sábado, 8 de novembro de 2014

Reivindicação

                       A feminista acusa o homem de ser machista

A cobra comeu o homem inteiro
reivindicando o topo da cadeia alimentar
logo veio a feminista
distorceu tudo
criticou a expressão comer
disse que se alguém come é ela
(fazia tempo não comia nada)
tudo culpa da sociedade patriarcal...
a cobra voltou jururu ao pantanal

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Testamento

Deixo meus órgãos a quem quiser
só confirmem não ser catalepsia
não quero correr o risco de acordar sem coração
pra não ser tão triste

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Traça

Seu ofício
           bem sabia:
roer poesia.
Morava e trabalhava
na prateleira
dum sebo distante
roendo palavras
               incessante

Um dia,
      não notada,
foi envelopada
viajou quilômetros
        até minha casa

O livro bolorento
me causou espirro
que acordou a bicha
sem cair sua ficha
de estar em perigo

Foi direto à cozinha
lanchar palavrinhas
coitada...
se achava esperta
morreu esmagada
na página aberta

Como sou bonzinho
deixarei sua lápide:
Aqui jaz
(já não existe mais)
assim com rimas
que adorava poemas

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Argumentando com Deus sobre os mandamentos

Deus meu Deus
não vou roubar ou matar
mas que a vontade não me quite créditos

Não usarei seu santo nome em vão
já uma piada
tem como propósito
o sorriso alheio 

As coisas do próximo
que as ponham onde bem couber
agora, a mulher do próximo meu Deus
usa um shortinho curtinho de lycra
perdoai-me senhor

Falso testemunho
não irei dizer
só uma mentirinha aqui e ali
pra sobreviver

A castidade
esse mandamento eu li
já era tarde

Domingos e festas
trabalho de garçom

Honrar pai e mãe
é o que mais quero
assim como ao senhor
dentro do possível 

Deus meus Deus
o senhor me fez sua imagem e semelhança
Deus
o senhor é doido mesmo

Profanando Adão e Eva

Eva ingeriu cogumelos
estava conversando até com cobras
mordiscou do fruto proibido
ficou com um puta tesão
e recomendou à Adão
que comesse da fruta
e não fosse tão careta

Adão ficou danado
quase que de uma vez
engoliu o fruto maduro
ficou de pau duro
e debaixo daquele pé de macieira
teve início toda sacanagem da Terra

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Copa 2014

Em toda esquina só se escuta: “Arrentina Arrentina”
nos bares um grito rompe seguido dum garrido: “CHI-CHI-CHI
LE-LE-LE” (é familiar)
Dentes passam tempo nas unhas
mais de milhões de olhos de tensões
Na praia o estrangeiro diz: “bata foca”
e o brasileiro aplaude igualzinho a bichinha
õ õ õ õ

Triste

Eu queria lhe arrancar toda tristeza
tomar sua mão, grudar à bochecha um beijo de afeto maternal
dizer que sabia, era evidente
eu correspondente

Tudo de triste nela sairia em risos pela boca
que apanharíamos e atiraríamos pela janela do ônibus em pessoas na rua
e quando todos compartilhassem dessa tristeza
tudo seria mais feliz

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Manifesto anarquista

LIBERDADE DE VERDADE SÓ SEM LEI DA GRAVIDADE

Olhar oblíquo

Faces interligadas
ainda que o sangue alheio
são muitas raças e formas no globo
mas humanos se multiplicam de maneira a esgotar a diversidade criativa do criador
Então geminou olhos não só em corpos gêmeos
entre pés mãos bocas seios
um par de olhos pra um coração
perdidos há quinhentos quilômetros numa metrópole
realçados sob óculos que os transpõe
e que estive tão perto
além dos alertas de perigo
digo, tão perto
provocou graves danos
pelo desejo permanente
de lhe fechar os olhos
lhe cravar a boca

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Poema de All faces

Quando nasci
desconfio que o anjo disse:
vai vai vai depressa!!
calma anjo, tenho preguiça
e muitas dúvidas também

sofrer por mulher
é mal de poeta
isso já acostumei

sou simples até mesmo forte
mas por mais que tente
não consigo ser sério

brigo e faço pazes com Deus
normal num relacionamento de amor
passei muito tempo fantasiando coisas
agora procuro sempre saber quem sou

mundo mundo
quando estiver moribundo
que tenha cumprido a sina
mundo
toda solução tem uma contradição que rima

não sei certo
mas era lua cheia
e o anjo estava mesmo bêbado

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Casa

A casa não dizia nada
não tocava nada não passava filme
tinha muito silêncio na casa

Cômodos humanos gatos
tudo no mesmo espaço
mas não se ouvia vagido de gata nem miado de gente
tinha muito silêncio na casa

Meu pai corre a porta do armário
um salto peludo não é o casaco nem seu sapato
-Vai morrer gato!
e a gente morre de rir

Ministério da corrupção 4

Grossi amava Dirceu que amava Delúbio que amava Queiroz que amava Tolentino que amava Barroso que não amava os últimos dois
Grossi deu a Dirceu emprego na biblioteca, Queiroz queria contratar Tolentino para trabalharem na firma dele, Barroso achou: ai já é demais! Delúbio tomou no CUT um cargo pra si, besteira que pensou agora tomamos mesmo eu e você



* Uma paródia do poema do Drummond chamado Quadrilha, irônico não?

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Polícia na TV (uma história real de amor)

No painel o rádio mudo
na nuca lâmpada iluminava o ego
o pontinho vermelho da câmera um sinal de entrar em ação.
Em casa ninguém perdia o programa
pro filho um herói, com o cunhado, muitíssimo respeitado
a polícia andava monótona mesmo em Hollywood
e aquele rapaz seduzindo a mocinha em praça pública
foi a conta:
- Boa noite meliante identidade por favor, o motivo da abordagem:
                                                                       [denúncia de sedução,
                                                                  [viemos na função do dever
Acostumado lidar com números gente não é diferente
apostou no bilhete do rapaz, não deu outra
tem passagem de outros anos  pelo porte dum cigarro de maconha.
A mocinha esclareceu conhecê-lo do trabalho,
a guarnição renitente na averiguação,
interrogados coibidos constrangidos
o câmera não perdia nada da ironia,
a moça tentou amenizar entrou em prantos, maldizendo a sorte
estava de olho no rapaz fazia tempo
mesmo antes dele sofria sem amores
desesperada o seguia  quase um mês
(a denúncia foi pra ela e o cana nem notou)
quando finalmente tem retorno a investida, surgem autoridades
Chorava coitadinha, bonita mas não sabia que atualmente
pra arrumar um namoro tem que baixar um aplicativo tinck fruck book
esperar que te curtam ou pelo menos te aceitem

domingo, 21 de setembro de 2014

Dom Tom Batom

Tudo tem um tom
tudo tem um tom amigo
e tudo tem um dom

tudo tem um dom
e tudo tem batom
tudo tem batom amigo, e eu
como é que fico?

no tom desafino
batom desatino
e o dom amigo,
quem sabe não este

Dicionário romântico

Ambos:
num um
o outro
os dois

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Globalização amorosa

Carro dela me atropela
não sabia que haviam tantos por ai
o índice de acidentes aumentou muitíssimo no meu coração
meu erro conduz lembrança sem habilitação


Dia-a-dia aquele frio na barriga
consolo faz da comida cobertor
gordura engorda baixa estima
bebo calórico obeso de amor
e ela nunca parou no drive thru
pra dizer: i Love you

Terror itinerante

No caminho dos trilhos do trem
cada metro percorrido aumentava expectativa de perigo
(me mantive a passos largos)
vida somente vegetal e de repente:
uma galinha
duas, não ia sozinha
à frente um cão caolho
voltada mancando do meu destino
persisti no itinerante
até as luzes da cidade
tumulto rodoviário, cachorrada malandra
sugeriam terror familiar
com tom de comédia
Restou o ônibus de volta
agora ela
não estava mesmo por lá

Cantiga de mercado

Escolhendo legumes
aquele anjinho
na seção de bebidas
em desalinho

Sensatez ou loucura
eu quis saber
gosta muito de verdura
ou gosta mesmo é de beber?

Me aproximei do anjinho
pra conseguir seu apreço
de uma garrafa de vinho
falei de sabor e preço

Ela adorou a sugestão
levou o que eu tinha falado
logo me disse: não!
foi beber com namorado

Amor sobre rodas

A mocinha esperava ansiosa
pelo carro do namorado

Disfunção

As coisas estavam mole feito meu coração
masculinidade me atirava pedras vaidade vaias
o porquê do acaso, o comentário com as amigas
muitas interrogações e nada de exclamação
(se é que me entende)
falta de sucesso e sossego me impediam ver o corpo nu na minha frente
seu consolo não consolava que na minha cabeça ela ia precisar dum consolo tendo um
                                                                                                                                                homem desses
(se é que me entende)
as piadas eram todas sobre mim, confeccionadas por mim, me desmoralizando como agora
acontece...
Duro é admitir: brochei
Víbora
da vulva carnívora
indecente
sorri impune/mente
transgressiva
aos erros da vida
doce
mamilos docinhos
utópica
inerente ao cosmo
versátil
tem desejo pluralista
soberana
dessa raça humana
esperta
com a perna aberta
quente
seu cheiro ferve
motivante
rosto inchado de sono
sabida
sabe das coisas
carente
                um tanto
carinhosa
                  carismática
adjetival
tentei listar
me perdi no labirinto
da cabeça de mulher

Velório do poeta

Perdoe toda hipócrita palavra até (de) agora
A doce velhinha foi uma jovem puta que fez carreira numa cafetina fria
Olhos mansos do cãozinho despontaram fúria que mastiga fatalmente minha filosofia inútil
Natureza animal feito humana
sem batom e intervalos comerciais
O mundo me enganou amigo, chamá-lo assim me cai com peso que não caiu cedo ao padeiro
Contradições disparam expectativas
Se não é acusado ou suspeito
está foragido
Continua a guerra em entender e se entender sem UPP
O percurso é longo
e não há palavra que me levará a lugar algum