sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Simpático

Sorri.
Sorri.
Sorri sorrindo
sorri sorrisos
tristezas e desabrigos.
Sorri,
não chora,
choro é cafona.
Então
aqui, ali
sorri.
Hora ou outra
faz outro sorrir,
e horas vão passando
e só não está rindo
quem ele não quer ver chorando...

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Coisas abstratas

Só o que me deixa triste sou eu
quem tem palavras pra descrever o amor?
livros e garrafas
coisas abstratas
sinto uma vontade louca de enlouquecer de vez
quem pode descrever o amor?
timbres e garrafas
sou incapaz de conter desejos
só o que me faz triste sou eu
quem pode descrever o eu?
tudo fica tão claro nessa escuridão
tudo escurece tão rápido
quem vai acender a luz?
sou incapaz
palavras e garrafas
labirinto sem fim em mim
sei onde ir
a passagem é cara de avião
falta entusiasmo
só quem me faz isso sou eu
lagrimas em garrafas
quem pode me descrever o amor?

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Pai

                                      -Não deixe o chinelo virado
                                      é mau agouro à mãe
                                                                                              
                                      Mas pai
                                      não creio nessas bobagens
                                                                                              
                                     -O esforço é tão pouco
                                     pro tanto que vale sua mãe...
                                                                                              
                                    (Desde esse dia minha mãe não há de morrer de chinelo virado)



Madeira máquina poeira
e operários empoeirados
sábado acordava cedo
com facilidade que não tinha em ir pra escola
na carona do carro de vidro automático e
direção hidráulica
(coisas eletrizantes pra época)

Ele tinha carro fábrica operários
era bem quisto visto que era o que era
de forma que nas conversas no trajeto
eu buscava impressionar

Madeira serra corte
meu pai como era forte
montava mobílias
desenhava traços
com a mão que o oficio lhe arrancou pedaços
com meus olhos de orgulho
com muita naturalidade

Ele tinha sabedoria
saber de vida
eu buscava apreender

Madeira dificuldade cachaça
meu pai já não tinha graça
ficava incoerente
balbuciando suas piadas 
nem assim era o pior

Ele tinha um problema
um problema e só
eu buscava entender

Madeira amor poesia
meu pai, quem diria
tem o dom da superação
renasce sempre melhor
um exemplo de gente na minha frente

Ele tem vida
(menos o outro dos outros)
apesar ter o remetido no passado
e isso não foi mau agouro pai
ainda não creio nessas bobagens

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Resto

Acabou
seus olhos chorosos adormecem pensando nela
e quando desperta, esperta, ela já está lá a te espetar

A partir daí serão dias a seguir.
Embriaguez ou simpatia
não curam nostalgia

Até que
nos seus olhos de remela
não é ela que está lá
e você pensa que
Urubus voam muito descoordenados
ou seriam gaviões, gaivotas...
A cabeça voa

No outro
se pensa na garota
que falou assim, assado, engraçado
e já se tem motivo pra sorrir
e partir
que ela se foi
e só
       sobrou eu

domingo, 15 de março de 2015

Petrópolis

Atravessar a Dezesseis de Março
como quem passa uma passarela
meninas e senhoras
elegância descomunal

Descer a Nelson de Sá Earp
rumo à Liberdade
lá chafariz é chamariz de namorados
e skatistas ativistas no deslize da vida

Carnes fervem
desatentas ao frio da serra
o sol aparecido tem mais valor aqui
coitado do que pensa ser feliz em outra terra

Antigos prédios e intelectos
mistérios enrustidos
mística rústica
distritos ligados a passos

Árvores contam
                     distinta história
memórias cantam
                     antigos arvoredos
Charretes é pra turistas
e vistas herméticas

Água da mais pura fórmula
puro oxigênio
esbanjamos ar
essa fusão que formam gênios

O motorista cede a vez
o pedestre cede a vez
tudo paralisa um minuto e ninguém buzina

Conterrâneos compadecidos conterrâneos
pros prós exalto peito
o defeito deixo ao burguês

Oitocentos metros mais perto do céu
privilegiada dentro do Brasil
povo certificado no lema
Autiora semper petens

quarta-feira, 4 de março de 2015

Ministério da corrupção 1

Admirável homem
inspiração do povo brasileiro
presidente do nosso Senado
ouso dizer: tal cargo excede importância
mesmo de quem preside a República
e esse és tu homem

Excelentíssimo beiçinho
peço a palavra
meu projeto de lei
criar escultura tua
no pátio de Bangu Um
ensinar aqueles
desprovidos do teu saber

Reitor da intervenção
improbidade administrativa
tu que inventaste tão belos sinônimos pro crime?



terça-feira, 3 de março de 2015

Sonho

Certa vez num sonho
percebi estar sonhando
decidi então beijar
uma desconhecida
mas pensei:
se é sonho
posso voar!
e acordei

segunda-feira, 2 de março de 2015

Profissão poeta

Noite tem meu corpo sob custódia
paredes detém o silêncio
tez o estrondo de dentro
meu pensamento busca uma idéia desassombrada
entre o escombro do meu assombro

Não é mesmo fácil essa coisa de poeta
a rotação da esfera em desacordo com a esferográfica
que por essa mão rabisca minha história

Poemas não vendem como novelas
melhor assim
não ia pegar bem merchandising entre versos

Esse dom é meu cárcere privado
falta agora outro que assine carteira

Somos trastes incorporados a algo grandioso
através de nós soam diversas notas

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Jornal das dezgraças


De todas profissões
sinto mais pena
do Apresentador de Jornal.
Dia mais dia:
morre fulano
fulana de tal
estava gravida
não resistiu…
cai avião
cai raio
o barranco
a casa cai…
sobe o tempo de trabalho pra aposentadoria
a temperatura sobe a cada dia
cai mais um
que não sabia
a Petrobrás
balança mais não cai…
FUTEBOL!


Queria conhecer um
tomar cerveja
dizer:
ei amigo
não sei nada que anda anunciando
por mim
nem tocamos no assunto
mas se preferir
pode se divertir
me contando uma ou duas tragédias

Brigar, olhar e amar


Brigas não se resolvem na cama
brigas se resolvem no olhar
antes de se deitar
nos olhos de quem ama…

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Glaucia

Eu te amo com uma constância
perco sentido de distância
eu me perco de mim

Te amo com uma indecência
que acham até imprudência
te amar assim

Amo com uma sensação medonha
e esse amor de peçonha
me envenena aos poucos

Amo mais que a mim mesmo
um amor a esmo
causa inveja aos loucos

Queria mais um coração
que este já faz serão
te amando mais um turno

Te amo pela madrugada
e quando chega alvorada
durmo

Eu te amo até dormindo
e o dia acordado
fica pasmado com meu amor

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Se a mente regenerasse como corpo...

Um ralado
no joelho
vira casca
vira mancha
vira nada

E por mais
que a ferida fira
vira cicatriz
pra lembrá-la
vez ou outra

Ferida na mente aberta
certamente
sangrará nos olhos
mais que joelhos

Ainda cicatrizada
fica estampada
no espelho
e dói mais
que o joelho